quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O sonho

Tive um sonho mau há umas noites. Um sonho muito mau.

Não me recordo particularmente de ter adormecido. Sei que quando dei por mim a acção se passava em frente à minha escola. Ele, o meu melhor amigo, ia a atravessar a estrada. De repente, foi tudo tão rápido que nem percebi bem. Quando reparei as minhas pernas corriam para ele, estendido no chão da estrada. O grito "Nãooooooo" que estava preso na garganta e se escoava no espaço e no tempo, devagar, como que em câmara lenta. Senti que chorava. Como poderia não o fazer? Ele estava ali, presente, mas inerte, frio, pior que morto se tal é possível. O carro que lhe batera estava parado ali mesmo. Ajoelhei-me ao pé dele, sem lhe mexer, sabia que não devia, a chorar baixinho. Chegou a ambulância, que o levou com ela. Senti que me puxavam dali. Não sei quem. Levantei-me. Hospital era a minha prioridade. Recordei-me vagamente da aula que deveria ter mas não quis saber. Fui ao hospital, entrei, nem tive de pedir nada a ninguém afinal era a filha da Enfermeira Carla. Mas destas vez não era na Enfermeira Carla que eu pensava, nem era a filha da Enfermeira Carla que ali estava. Era a melhor amiga de alguém. Sentei-me à espera. Sentia o tempo passar. Não sabia dele. Ia perguntando. Não podiam ainda definir nada. Passou mais tempo. Quando recobrei a consciência do sonho ou o que fosse que lhe equivalesse estava sentada numa cadeira, ao pé duma cama rodeada de máquinas. Coma? Como?... As lágrimas voltaram a deslizar. Eram uma constante. Sentia-me vazia, perdida, triste, afogava-me nisso, não sabia nadar. Afinal ele era a minha bóia. Sei que tive de regressar às aulas. Mas não falava, não tinha consciência do que comia, do que fazia, do que deveria fazer. A minha garganta era uma permanente bola prestes a explodir. Fazia um esforço por ser forte. Por mim? Por ele? Por nós? Não sabia. Todas as tardes me ia sentar ao pé dele... Era agonizante. Sabia que quando ele voltasse a acordar, como eu desejava, se voltasse a acordar, sofreria. Teria dores, na melhor das hipóteses. Sentia-me egoísta e não conseguia deixar de sê-lo. Só queria voltar a ver aqueles olhos castanhos outros vez. A brilhar para mim. Tinha a vaga sensação de que os amigos dele passavam por lá. Sentia a presença deles. Ouvia as suas vozes. Mas não me mexia.

E depois um dia, estava eu debruçada sobre a cama dele, ligeiramente esgotada, psicologicamente derrotada e sinto uma mão no meu cabelo. Ergo a cabeça assustada. Era ele que me olhava, com aqueles olhos castanhos a brilhar. Pálido, definitivamente branco, mas acordado. Oh estava acordado. Chorei, outra vez a chorar pensei rindo, um riso borbulhante e cheio, mas era um choro bom, de alívio, de alegria, de felicidade, de tudo e mais alguma coisa.

Estremeci, não sei se acordei ou se simplesmente o meu olhar saiu de dentro da minha cabeça. Não me recordava de ter adormecido mas ganhei a consciência, devagarinho, de que fora um sonho. Senti-me despertar para o mundo terreno, sair da minha mente, tremia, sentia o meu coração pequenino. O nó na garganta não desaparecera. A minha almofada estava molhada, não húmida mas molhada, uma grande mancha de água que a cobria quase inteiramente. Pensei se teria sido tão real assim. A verdade é que nunca tive sonho mais verdadeiro. E nunca desejei tão ardentemente que não o fosse.

Nunca tive a perfeita noção da tamanha presença que ele tem em mim. Sabia que me fazia falta. Que me fazia bem. Que precisava dele. Que ele tem um efeito em mim que os outros não conseguem reproduzir. Mas não que me marcava tão profundamente. Ou sabia e preferia não saber. Tive medo. Medo a sério. E contei-lhe. Contei-lhe esse sonho porque dizem que, se contarmos, os sonhos não se realizam. E tudo ficou bem com uma gargalhada dele.

O que significa o estado em que fiquei, se é que significa alguma coisa... não sei se quero saber... se significa alguma e, se significar, não sei se quero descobrir o quê...

Eram 04:40 da manhã quando me apercebi de que não era real. Que se passara apenas... dentro da minha cabeça.

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